22 de maio de 2011

Entrevista com João Barone, entusiasta da Segunda Guerra Mundial e baterista dos Paralamas


João Barone é o baterista de uma das bandas de mais sucesso no Brasil, essa que junto com Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho, forma a base do rock nacional, Os Paralamas Do Sucesso. Também atua como entusiasta da Segunda Guerra Mundial, usa sua paixão por veículos militares antigos para promover uma ideia já esquecida e tão importante quanto o valor e os ensinamentos que a guerra trouxe. Veja a entrevista abaixo:


PSG: Sr. João Barone, você é um entusiasta da Segunda Guerra Mundial, assim como da FEB, gostaria de saber, o que o motiva, e qual a importância, na sua visão, possui resgatar e guardar a história que envolve todo esse conflito?

JB: Tive um reencontro com o tema depois que me dediquei a restaurar um jeep Willys MB da Segunda Guerra, ocasião em que fundamos um clube de entusiastas de viaturas militares antigas no Rio, o CVMARJ. Comecei a me interessar com mais motivação pelo tema, pois meu pai dirigia um jeep como esse quando era soldado no Regimento Sampaio, em ação na Itália com a FEB. Nos eventos em que nosso clube participava, sempre dávamos especial atenção aos ex-combatentes, nos desfiles e eventos. Sempre me deparei com a falta de valorização dos da história do Brasil na Segunda Guerra, não apenas do esquecimento dos ex-combatentes, mas tudo que significou o Brasil enviar seus soldados para uma guerra em plena Europa, enquanto nos éramos um país de 4º mundo, tudo que isso significou. Conhecer a história da FEB ajuda a entender os paradoxos do Brasil de hoje.

PSG: Um dos trabalhos que realizou foi o documentário pela History Channel, “Um Brasileiro No Dia D”, gostaria que nos contasse como foi à experiência de refazer os passos de uma batalha tão importante como a do Dia D. E o que o motivou a isso.

JB: Está tudo bem explicado no documentário e depois no livro que escrevi: A minha Segunda Guerra. Foi um verdadeiro sonho visitar aqueles lugares na Normandia onde ocorreu o Dia D. Foi emocionante ver como os ex-combatentes são LEMBRADOS e RESPEITADOS por todos, isso foi um dos pontos altos da narrativa.

PSG: Assim como o documentário citado antes, um dos motivos de ter escrito o livro “A Minha Segunda Guerra” foi a de que seu pai participou do conflito, como muitos sabem, integrando a Força Expedicionária Brasileira. No livro, você registrou muitos aspectos curiosos da guerra, do documentário que apresentou, bem como de seu pai. Em relação a você, como foi registrar esses fatos? E que repercussão você acha que eles tiveram e ainda tem sobre as pessoas?

JB: Eu fico aliviado em saber que existem pessoas que sabem, reconhecem e respeitam a participação do Brasil na guerra, mas a grande maioria desconhece tudo que diz respeito a isso. Nossa missão é não deixar que o
sacrifício dos que morreram nos torpedeamentos dos navios brasileiros e nos campos de batalha e nos céus da Itália seja esquecido. Lembrar por que lutaram e por que morreram, deixar esta lição para as gerações atuias e futuras. O brasileiro teve coragem e fibra na luta, não somos um bando de fanfarreiros, como muitos querem nos transformar.

PSG: Você é um colecionador de viaturas militares antigas, e faz parte da Associação Brasileira de Preservadores de Viaturas Militares, em sua opinião, qual importância exerce expor para as pessoas algo realmente impactante da Segunda Guerra Mundial, ou seja, as pessoas ouvem muito falar do conflito, de estórias sobre a mesma, mas mostrar de perto instrumentos, réplicas ou verdadeiros, da guerra para as pessoas é algo diferente, qual a influência que isso causa?

JB: Isso passa por certas tecnicidades, coisas que nem todo mundo tem disposição. Eu acho legal saber os nomes dos aviões e tanques, mas tem horas que isso se torna massante. Saber sobre a Segunda Guerra vai mais além do que passear de jeep domingo de manhã, mas eu reconheço que isso leva a outras coisas mais importantes, como o resgate histórico, valores cívicos, essas coisas que chamam de cultura.
PSG: Sr. Barone, por favor, deixe suas considerações finais. Obrigado pela entrevista e ainda mais sucesso!
JB: A Segunda Guerra é um assunto amplo, que desperta muitos sentimentos, mas acima de tudo, o horror à monstruosidade humana. Na tentativa de dar um bsentido a tudo que aconteceu naqueles tempos conturbados, acredito que a maioria das pessoas que se deixa levar pelo tema reconhece como a guerra foi capaz de despertar o melhor e o pior da natureza humana. Esse é seu grande legado: jamais esquecer.



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Um comentário:

Arthur Bastos disse...

Como filho de um pracinha, verifiquei, depois de ler o livro do Barone, entre envergonhado, emocionado e decepcionado com o nosso atual ambiente cultural, que eu também conhecia pouco da FEB. Meu pai, como o dele, pouco falava da guerra, talvez por ter presenciado os horrores de seus resultados.

Depois de ler-lhe o livro e ver "Um Brasileiro no Dia D", reli muitas cartas de meu pai aos meus avós paternos e descobri uma pessoa muito diferente da imagem que ainda perdura em minha memória. Descobri também que conhecia mais dos heróis "importados" (Clostermann e Marseille, por exemplo) do que sobre os nossos verdadeiros heróis, hoje relegados ao mais injusto e revoltante esquecimento. Como sempre, as atitudes oficiais dos nossos governos em relação a eles primaram pela injustiça e pelo descumprimento de promessas. Aliás, atualmente a mídia ajuda muito nesse processo de eliminação da memória histórica, ao chamar, por exemplo, de "nossos heróis" os participantes do BBB...

Fica aqui o meu "mea culpa" por não ter enxergado até então o autêntico valor dos verdadeiros heróis. E fica também o agradecimento ao Barone por ter tentado ajudar a levantar o véu, cada vez mais espesso e opaco, que envolve, propositalmente, a história da FEB. Hoje em dia não interessa a ninguém possibilitar comparações entre heróis...

Arthur Bastos.